Cazuza
- O Tempo Não Pára

A
vida louca, vida breve que marcou o percurso profissional
e pessoal de Cazuza, do início da carreira, em 1981,
até a morte em 1990, aos 32 anos: o sucesso com o Barão
Vermelho, a carreira solo, as músicas que falavam dos
anseios de uma geração, o comportamento transgressor
e a coragem de continuar a carreira, criando e se apresentando,
mesmo debilitado pela Aids. A trajetória de um artista
para quem o tempo não pára.
Ficha Técnica
Título original: Cazuza - O Tempo Não Pára
Gênero: Drama
Duração: 90 min.
Lançamento (Brasil): 2004
Distribuição: Columbia Tristar Films
Direção: Sandra
Werneck e Walter Carvalho
Roteiro: Fernando Bonassi e Victor Navas
Produção: Daniel Filho
Direção de produção: Marcelo
Torres
Co-produção: Flávio Tambellini,
Lereby Produções, Globo Filmes, Cineluz Produções,
Columbia Tristar Films e Petrobras Distribuidora
Música: Guto Graça Mello
Som: Zezé d'Alice
Fotografia: Walter Carvalho
Direção de arte: Cláudio Amaral Peixoto
Figurino: Claudia Kopke
Edição: Sergio Mekler
Maquiagem: Juliana Mendes
Pôsters
Premiações
- No Prêmio Adoro Cinema Brasileiro 2005 ganhou 4 prêmios,
sendo a maioria nas categorias de atuação. O
destaque foi a dupla premiação de Daniel de
Oliveira, que ganhou nas categorias de melhor ator e melhor
revelação masculina. As demais categorias vencidas
foram as de ator coadjuvante (Emílio de Mello) e trilha
sonora.
Curiosidades
- Inicialmente o título do filme seria "Eu Preciso
Dizer Que Te Amo".
- Para escolha do ator para o papel de Cazuza, Sandra Werneck,
desde o início queria um desconhecido. Achava que nenhum
ator muito marcado entraria na vida do Cazuza como eu gostaria.
Foram mais de 60 testes, o Faustão anunciou a busca
de um ator para o papel, muita gente apareceu. Nos testes,
não dava cenas, preferia a improvisação.
Daniel Oliveira foi sugerido pelo ator Sérgio Maciel,
que tinha sido companheiro de Cazuza. Daniel tinha feito uma
ponta em um filme que nunca passou, estava fazendo uma peça
e só tinha participado de Malhação. No
teste, ele deveria improvisar a cena de quando recebia o resultado
do teste da Aids. A maioria dos atores chorava, corria, se
desesperava. Ele pegou o teste, amassou, botou na boca e cantarolou
"o meu futuro é duvidoso". Ele teve uma atitude
totalmente Cazuza. Sandra Werneck não teve mais dúvida,
mas não podia escolher sozinha. Levou uma fita com
oito testes para os pais do Cazuza. Quando João viu
Daniel, falou: "é esse, Lucinha".
- Os atores fizeram um curso de preparação com
Walter Lima Jr. Ninguém se conhecia, quem era músico
não era ator, quem era ator não era músico.
O Arlindo Lopes, que faz o Dé, não sabia tocar
nada, aprendeu em um mês. O Cadu Favero, que faz o Frejat,
só sabia tocar o solo de "Pro dia nascer feliz".
O André Pfefer, que faz o Maurício, não
era ator. O Dudu, que faz o Guto, é um super ator,
mas não era músico. Daniel Oliveira brincava
de cantar em Belo Horizonte, mas nada profissional. Durante
a preparação do filme tive aula de canto para
chegar mais perto do timbre do Cazuza.
- Produtor do primeiro disco do Barão Vermelho, em
82, junto com Ezequiel Neves, Guto Graça Mello assina
a direção musical do filme, que tem pelo menos
40 cenas envolvendo parte do repertório da banda e
de Cazuza, além de músicas clássicas
e outras de Cartola e Ney Matogrosso.
- A carreira do Barão Vermelho deslanchou depois que
Guto e Ezequiel conseguiram vencer a resistência de
João Araújo, pai de Cazuza e presidente da Som
Livre, a gravar o primeiro disco do Barão Vermelho.
Nos últimos oito meses, Guto recolheu os tapes de gravações
e recuperou todo o material da banda.
- Daniel Oliveira usou de lente de contato e teve que emagrecer
11 quilos, para o papel. Perdeu os 11 quilos em três
semanas em um regime radical - em casa e num spa.
- Antes de começar as filmagens de Cazuza, Emílio
de Mello quis conhecer Ezequiel Neves, sua personagem no filme
e parceiro de longa data de Cazuza. Um contato que chegou
a render eventuais mexidas no roteiro, aprovadas pela diretora
Sandra Werneck
- A exemplo de seus outros filmes, o apartamento de Sandra,
na Gávea, também serviu de locação,
como casa de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza.
- Em um no pátio de um condomínio na Epitácio
Pessoa, na Lagoa, para recriar num palco improvisado o primeiro
show do Barão Vermelho, que na realidade ocorreu em
82 na Barra.
- Flávio Tambellini, que assina a co-produção,
viabilizou a construção de uma réplica
do Circo Voador no Arpoador e a criação em estúdio
de cenários que revivem o Rio dos anos 80 e de Cazuza.
- Os figurinos também trazem de volta as marcas que
ditaram a moda na Zona Sul dos anos 80. O olhar atento desvenda
rapidamente a camiseta da lata, os anjinhos da Fiorucci, a
bermuda jeans da Dimpus, os tênis das marcas All Star
e Company, a calça baggy, os biquínis de pano
e de tricô, spencers, leggings e as bandanas coloridas.
E também o brinco grande numa orelha só, os
cabelos assimétricos e as ombreiras. A figurinista
Claudia Kopke vasculhou em brechós as relíquias
que fizeram a cabeça e vestiram os jovens da geração
Cazuza. Para retratar o período que começa no
fim dos anos 70 e termina com a morte do cantor, em 90, o
filme desfila por dois estilos diferentes.
- A equipe reproduziu as camisetas usadas em shows pelos músicos
do Barão Vermelho. Numa delas, Cazuza expõe
toda a sua irreverência com os dizeres "Prefiro
o Toddy ao tédio".
- Sinopse Completa
Rio de Janeiro, 11 de junho de 1980.
Sob a lona do Circo Voador, um jovem muito maquiado canta
uma música em inglês. Poderia ser apenas mais
um entre inúmeros aspirantes ao sucesso que se apresentavam
no espaço mais democrático da época.
No entanto, Cazuza não ficaria muito tempo na tribo
dos talentos promissores.
Instável, desafiador, mas também extremamente
sedutor, ele vivia sua confortável vida de garoto da
Zona Sul sob constante vigilância da mãe. Mas
Cazuza queria mais - na verdade, queria muito mais. Cazuza
queria tudo, ao mesmo tempo, em um agora permanente.
Sua urgência transgressora não conhecia limites
e se refletia em todas as áreas de sua vida - nas relações
afetivas, nas novas experiências, no amor pelo perigo,
na criação artística. E ele logo descobriu
que a música era a melhor maneira de expressar essa
urgência que não tinha começo, não
tinha fim, não tinha foco. Cazuza vivia tudo ao mesmo
tempo ao lado de sua tchurma - uma tchurma eclética
e heterogênea que refletia vários lados de sua
própria personalidade.
O encontro com os Barões - o guitarrista Roberto Frejat,
o baixista Dé, o baterista Guto Gofi, o tecladista
Maurício - músicos de sua idade à procura
de um novo som, foi a primeira etapa de sua vitoriosa carreira
de letrista. Junto com os Barões, Cazuza viaja, conhece
o Brasil, vive novos afetos e paixões. Para atenuar
a intensificação de conflitos familiares, é
intimado a trabalhar com o pai, diretor de uma gravadora,
onde conhece Zeca, produtor musical experiente, que se transforma
em uma espécie de guru e lhe apresenta novos autores
e poetas.
O jovem inquieto passa a surpreender com letras de alta densidade
poética, que definiam sentimentos e idéias para
a sua própria geração, até então,
sem porta-voz. A apoteótica apresentação
do Barão Vermelho no 1o Rock in Rio em 1985 era a prova
de que aqueles jovens que cresceram sob a ditadura podiam
finalmente cantar "para o dia nascer feliz" com
Cazuza enrolado na bandeira do Brasil.
O sucesso, no entanto, não domesticou as arestas do
novo ídolo. Viver cada vez mais intensamente, romper
limites e correr todos os riscos fazia parte de seu show cotidiano,
monitorado, na medida do possível, por uma mãe
atenta e preocupada, mas também orgulhosa do talento
do filho que adorava acima de tudo. A falta de regras se incluía
na seleção de repertório e ele surpreendeu
novamente, por exemplo, ao cantar O Mundo é um Moinho,
de Cartola, uma opção inesperada para um roqueiro.
O diagnóstico de que era portador do vírus HIV
foi recebido pelo jovem artista com desespero, seguido da
busca de novas formas de tratamento para uma doença
que, na época, representava uma sentença de
morte a curtíssimo prazo. E foi justamente sob esta
condenação que Cazuza deu provas de uma coragem
sem precedentes no país: expôs a doença
e sua deterioração física, apresentou-se
em público em shows comoventes e não abriu mão
dos poucos prazeres que lhe restavam, disposto a viver o tempo
que tivesse como sempre quis: fiel a si mesmo, aos seus desejos
e sentimentos. No curto futuro duvidoso que viveu, Cazuza
nunca mentiu para si mesmo ou para as pessoas que amava.
Cazuza morreu em 1990 aos 32 anos.
- Alguns trechos de Cazuza no filme:
"Cantando a gente inventa. Inventa um romance, uma saudade,
uma mentira... Cantando a gente faz história. Foi gritando
que eu aprendi a cantar: sem nenhum pudor, sem pecado. Canto
pra espantar os demônios, pra juntar os amigos. Pra
sentir o mundo, pra seduzir a vida."
"Sou ariano. E ariano não pede licença,
entra, arromba a porta. Nunca tive medo de me mostrar. Você
pode ficar escondido em casa, protegido pelas paredes. Mas
você tá vivo, e essa vida é pra se mostrar.
Esse é o meu espetáculo. Só quem se mostra
se encontra. Por mais que se perca no caminho."
"Sou da geração do desbunde. Nunca tive
saco pra milico, desfile, gente com medo. Todo mundo ficava
paralisado, mudo, anestesiado. Não dava pra fingir
que não tinha nada. Pra mudar alguma coisa a gente
teve que gritar, se drogar, ir pra rua, enfrentar a nossa
própria fraqueza. Era uma maneira de não se
render. De não ficar careca, careta."
"Estou escrevendo numa tarde cinzenta, fria. Trabalho
pra espantar a solidão e meus pensamentos. Perdi muito
tempo com este segredo. Hoje eu assumi publicamente a doença.
Dizem que gente grande faz assim. Talvez eu esteja ficando
grande. Mas ainda tenho muitos medos: medo de voar, de entrar
no palco, de amar, de morrer... de ser feliz. Medo de fazer
análise e perder a inspiração. Ganho
dinheiro cantando as minhas desgraças. Comprar uma
fazenda e fazer filhos, talvez fosse uma maneira de ficar
pra sempre na Terra. Porque discos arranham e quebram…
as pessoas, esquecem. Amor, Cazuza."
"O amor é o ridículo da vida. A gente procura
nele uma pureza impossível, uma pureza que está
sempre se pondo, indo embora. A vida veio e me levou com ela.
Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga idéia
de paraíso que nos persegue, bonita e breve, como as
borboletas que só vivem 24 horas. Morrer não
dói."