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Claquete

por Tatiana Pugliesi

De olhos não tão vendados

Narrativa quase musical. Provavelmente seja esta uma de suas sensações ao assistir a última obra de Toni Venturi, Cabra Cega.

Narrativa quase musical. Provavelmente seja esta uma de suas sensações ao assistir a última obra de Toni Venturi, Cabra Cega.

Ambientado nos anos negros da ditadura, fase de repressão e efervescência política e cultural, o filme relata fragmentos da vida de pessoas que optaram pela luta armada atrás de ideais contrários aos impostos pelo regime. Entre amostras da ação dos grupos revolucionários da época, Cabra Cega denota as dificuldades que haviam entre os militantes políticos em conseguir se relacionar com outras pessoas, fruto da opção por uma vida cercada de tensão, riscos e desconfianças.

O enredo gira em torno do personagem de Leonardo Medeiros, Thiago, um admirado e idealista comandante de uma organização de esquerda debilitada.

Ferido no combate em emboscada feita pela polícia e procurado como terrorista, seu grupo se articula para escondê-lo e a única maneira segura é o confinamento total.

Seu único contato com o mundo é Rosa, personagem de Débora Duboc, também militante. Cego ao mundo, sua visão limita-se aos noticiários da TV e às frestas das janelas do apartamento.

O líder revolucionário não consegue se adaptar ao confinamento e à dependência de outras pessoas. Enquanto assiste a ruína progressiva de sua organização política e a queda de seus companheiros, vai perdendo a razão.

Apesar da crise e conseqüente agressividade pela qual passa o radical Thiago, ele é tocado pela ajuda de pessoas que acabam conseguindo fazê-lo olhar por outras perspectivas. Um destes momentos é a amizade com uma espanhola que perdeu seu filho na ditadura Franquista. Todo este contexto turbulento acaba aproximando os personagens de Thiago e Rosa, culminando em uma paixão.

Toni Venturi, autor também de Latitude Zero, supera sua obra realizando uma produção singela, porém competente. As cenas da narrativa principal mesclam-se com flashes de fatos passados a fim de elucidar melhor a trama. A tensão na utilização da "câmera na mão" e os closes bruscos, apesar de causar certo estranhamento, acentuam a tensão do filme. A sensação de gradual enlouquecimento do protagonista confinado é realçada por pequenos detalhes nas cenas dentro do "aparelho" no qual está escondido, como o barulho de um relógio ou a rachadura aumentando no teto do quarto e pela boa interpretação de Leonardo Medeiros.

A produção aborda tópicos como esperança, luta por idéias, união, coragem e o valor da liberdade. E baseada na necessidade de liberdade do ser humano, acontece uma das cenas mais bela do filme, quando o personagem de Leonardo, guiado por Rosa, sobe ao terraço vendado e é acometido por reações que ressoam na platéia o sabor da liberdade.

O filme não esclarece, só induz fatos da ditadura. Pede, então, certo repertório para captar todos os elementos em cena. Retrata a situação de uma época importante para nosso país, as vidas clandestinas que atuavam no plano de fundo para um futuro diferente. Uma luta que se espalhou para os movimentos sociais, culturais e para a música. E é na música que Venturi encontra a melhor forma de repassar os sentimentos e anseios da época.

A trilha sonora, selecionadíssima, completa e acompanha perfeitamente as imagens, o desenrolar da narrativa e ainda adiciona novos elementos e impressões. Canções como "Eu quero é botar meu corpo na rua", "Construção" e "Roda Viva" são oportunamente apresentadas, algumas no seu formato original, outras protagonizadas por Fernanda Porto em remix com participação de Chico Buarque. Mescla de trilha que emociona com imagens aleatórias de ícones como Guevara e Lamarca fazem atinar para a cegueira sobre determinados acontecimentos e valores perdidos em nossa história.

Cabra Cega não é pioneiro no tema, mas é uma leitura que tem a agregar. Dimensiona pela ótica humana, pessoal, sensorial, um ponto de vista diferente.

Venturi nos conduz a um final dissolvido em uma tela branca iluminada, com a ação e a música de fundo, deixa a sensação de que houve e ainda há muito mais a escrever nas páginas deste país.

Adoro Cinema Brasileiro

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