Denso e sombrio, estas podem ser impressões marcantes na produção Nina do diretor estreante Heitor Dhalia, exibida na 28 Mostra BR de Cinema em São Paulo e com estréia prevista para esta sexta-feira nas salas de cinema.
O filme possui temática inspirada na obra de Dostoiévski , "Crime e Castigo", mas diferente desta, seu personagem protagonista é feminino. A intenção de Dhalia foi capturar principalmente a essência do livro do escritor russo: a paranóia, a culpa e a loucura que podem levar pessoas a gestos extremados.
A personagem protagonizada por Guta Stresser, como no clássico também divide as pessoas em seres ordinários, aqueles que conservam o mundo como ele é, e os extraordinários, que contestam de alguma forma os conceitos estabelecidos e aceitos pela maioria e movem o mundo para um objetivo.
Nina, a personificação estética de um mangá japonês, é uma garota solitária e perturbada pela opressão da cidade e pelas humilhações de Eulália, a dona do quarto onde vive. A velha decrépita e avarenta explora e abusa psicologicamente de Nina persistentemente, levando-a a cometer um crime.
Eulália, vivida majestosamente por Myrian Muniz, arrasta-se pela trama e pela vida de Nina. Myrian consegue manter a complexa personagem em uma penumbra astral negativa, reforçada pelo timbre impetuoso da sua voz, garantindo carga assombrosa e densa ao filme. Mescla o trágico com o cômico.
Da metade em diante, demarcada pelo crime, a produção perde um pouco do ritmo inicial quando mergulha em definitivo na insanidade de Nina. Em momentos beira o maçante, cansativo, porventura intencional. A intensidade da sonoplastia - lembra hitckok - marca intensamente o clima nas cenas, chega a ser obsessivo.
O delito serve como divisor, pontua uma fase diferente no filme onde a realidade começa a tornar-se subjetiva. Alucinações auditivas e visuais misturam a realidade com insanidade, projeção do medo e de angústias. O reflexo da realidade se torna tão distorcido que provoca certa confusão para assimilar o que é a mente de Nina e o que efetivamente acontece.
Entre os méritos da produção está a fotografia e a música. A fotografia de José Roberto Eliezer revela nas imagens do filme um clima de mistério e aflição. Busca e consegue traduzir visualmente o estado psicológico da personagem. Quase em preto e branco acompanha a narrativa com pouca cor, muito contraste e texturas, nos ambientes e na luz. O resultado são imagens densas de um universo sombrio, escuro, mas carregado de detalhes. Talvez a maneira como a personagem Nina enxerga o mundo que a oprime.
A trilha sonora intensa mistura o clássico com música eletrônica, eleita pela própria personagem, apresenta-se progressiva como a trama.
O destaque fica para os desenhos do paulista Lourenço Mutarelli, ilustrando momentos determinados da trama. Feitos em técnica nanquim, eles compõem o caderno de Nina ou surgem animados na tela, refletindo seus inserts de loucura. Fortes, violentas e reveladoras, as imagens auxiliam no entendimento da alma perturbada de Nina e imprimem dramaticidade, concedem valor e certa personalidade a produção.
Ambientado em São Paulo, o filme de Dhalia mostra ainda o underground paulistano e o centro da cidade; hostil, decante, gasto e a miséria humana, totalmente adequado para repassar a atmosfera sombria e perturbada. A opressão da grande metrópole, a necessidade do dinheiro, o isolamento, a falta de relações afetivas e a distância da família, são algumas das situações ilustradas no filme.
"Como em Crime e Castigo", Nina explora a humilhação do ser humano e até que ponto este consegue aceitá-la. E você, como reagiria?
Descubra-se entre os ordinários e os extraordinários.