Levar às telas de cinema a saga da alemã, Judia e comunista, que foi esposa de Luís Carlos Prestes, teve papel importante na história do Brasil de Getúlio Vargas e comoveu o mundo. Uma mulher idealista e independente com uma trajetória de vida curta, porém intensa e rica em detalhes, vivências e passagens por lugares tão marcantes como distintos; a Alemanha de Hitler, a União Soviética comunista e o Brasil da década de 30.
Tudo que a princípio parecia ser tarefa inviável se transformou em uma belíssima e emocionante produção. Olga, o filme, dirigida por Jayme Monjardim, é uma adaptação do livro homônimo do jornalista Fernando Moraes. Adaptação que passou sete anos nas mãos da roteirista e produtora Rita Buzzar, após ter os direitos da obra cedidos em 1995.
Aqueles que leram o livro, logo no início do filme, porventura podem se incomodar sentindo falta de trechos que na obra de Moraes parecem ser fundamentais. A juventude burguesa depois militante no bairro operário em Berlim e a vida ao lado de Otto Braun; tão importantes para sua formação política e intelectual. Parece faltar elementos, diálogos, palavras e informações que atinjam a magnitude do livro. A construção é diferente, desperta a dúvida de que o entendimento, para quem não conhece esta saga, fique prejudicado, confuso. Mas não é nada disso.
Ao final dos imperceptíveis, 141 minutos, você se dá conta do quão impossível seria colocar tudo em uma única produção cinematográfica. A obrigatória sintetização se mostra como uma boa adaptação de roteiro, concisa e bem selecionada. Rita Buzzar conseguiu com delicadeza recriar esta história agravada pela amplitude de Olga.
O sucesso do filme vai muito além do roteiro, a equipe de produção conseguiu atingir um nível surpreendente nas tomadas; locações, figurinos, luz, clima e elementos de cena. Ultrapassa a maioria das produções brasileiras. Seria possível não identificar a produção como nacional se não fosse pelo idioma e elenco. E todos os recursos do filme, até agora com orçamento total de 12 milhões, são exclusivamente brasileiros.
A fotografia é excelente, impressiona. As cenas gravadas no intenso calor do Rio de Janeiro conseguem repassar com perfeição, em película monocromática, a cor e o tom do frio e atmosfera européia. O resultado são lugares sombrios, tristes e opressores que revivem fatos marcantes. Lugares onde somos conduzidos através dos enormes e vibrantes olhos azuis de Camila Morgado, realçados por closes fechado e estrategicamente iluminados.
A surpresa maior diante de tanta competência é que grande parte da equipe do filme é estreante em cinema. Entre estes o próprio diretor Jayme Monjardim, Rita Buzzar como produtora, a atriz Camila Morgado, a diretora de arte Tiza de Oliveira e o diretor de fotografia, Ricardo Della Rosa.
Coincidentemente, o filme está sendo lançado em momento político oportuno, entre o cinqüentenário de Getúlio e aniversário das diretas já.
Intimista, a maioria das cenas são ambientadas em locais pequenos e fechados.Todavia, os fortes episódios de torturas são pouco retratados, refletindo a preocupação de não transformar a produção em algo apelativo ou pesado. Outra evidência para isso é a valorização muito maior do lado humano dos personagens ao político.
O lado humano do líder comunista Prestes vem à tona na interpretação de Caco Ciocler. Intuitivamente ele revive o recatado e apaixonado líder comunista, tanto na aparência quanto nas atitudes, denotando sua pureza e integridade. Caco faz um belo trabalho como Prestes, admirável.
Camila Morgado, indiscutivelmente no papel de Olga, teve como principal característica decisória para o papel seus marcantes olhos azuis, muitos semelhantes aos da personagem. Mas se esta característica física lhe concedeu o papel, sua competência dramática é que faz com que Olga seja retratada de maneira tão sublime.
A complexidade de cenas como o parto na prisão, a entrega da filha Anita e a morte em uma câmera de gás, possuem tamanha carga emocional e maturidade que reafirmam a capacidade da jovem atriz. Camila tem de lidar com o sofrimento de variadas “Olgas”: a mãe, a mulher, a comunista. Passou por treinamento militar, intelectual, raspou a cabeça e emagreceu sete quilos. Como não poderia deixar de acontecer, a atriz também foi conquistada diante de tanta dignidade. “Olga me passou que existem várias maneiras de transformar o mundo, lutando pelo bom e pelo justo”.
O filme não substituí a grandeza do livro, mas resgata o brilho e dá novamente vida a Olga Benário Prestes. Abriu o Festival de Gramado fora do circuito competitivo e tem cacife para prováveis indicações nos principais festivais de cinema internacionais.
Para aqueles que já estavam contagiados com a obra de Fernando Moraes, as telas servirão como reforço visual e emocional onde nos apaixonamos mais pela figura fascinante que Olga foi e sempre será. Se ainda não conhece a saga desta mulher movida por ideais de liberdade e justiça social, não se surpreenda se for influenciado. Difícil conhecer Olga e nada mudar dentro de você.