É difícil não se empolgar com as produções da Casa de Cinema de Porto Alegre. O grupo de três casais cineastas que começou com discretos filmes super 8 nos anos 70 hoje é dono dessa importante produtora, referência de cinema para o Rio Grande do Sul, tendo lançado no mercado nacional e internacional títulos como "Ilha das Flores", Tolerância e O Homem que Copiava. Todos são muito competentes. Carlos Gerbase foi o primeiro a estrear em longa-metragem, sua esposa Luciana Tomasi cuida da produção de todos as iniciativas da casa. Giba Assis Brasil é o montador oficial do clã e é requisitado em nove entre dez produções gaúchas. Sua esposa, Ana Luíza Azevedo, já assinou curtas interessantes e se prepara para o primeiro longa. E ainda tem Nora Furtado, que também é produtora, conhecida como "a linha dura" da empresa. Não pode faltar. O marido, é, sem sombra de dúvida, o mais profícuo da turma. Depois do estrondoso sucesso do curta "Ilha das Flores", ainda no ano de 1989, Jorge Furtado demorou para fazer o longa Houve uma Vez Dois Verões, em 2002, mas depois, encontrou o caminho da comédia inteligente que agrada todos os públicos sem problema algum. Com cancha de roteiros para a Globo, convivência com os projetos especiais da grande rede e mais a experiência do heróico cinema no extremo sul do país, não demorou muito para Furtado cunhar o seu segundo longa, ainda melhor: O Homem que Copiava, de 2003, onde já adotou a técnica de nacionalizar seu elenco com nomes não-gaúchos nos papéis principais. Com isso, mais um punhado de talento e uma mão dedicada e atenciosa na direção, Furtado criou um tipo de cinema moderno, urbano, gaúcho, mas ao mesmo tempo universal.
Foi em clima de "avant-premiére" que cerca de 500 pessoas puderam assistir com um mês de antecedência o novo filme da Casa de Cinema e do diretor, Meu Tio Matou um Cara. Filmado num tempo exíguo, obedecendo a um cronograma definido e acompanhado por Nora e Luciana, o filme chega às telas com uma campanha de marketing interessante - não grande, do jeito que mereceriam estes bravos cineastas gaúchos -, e rodeado de muita expectativa. A produção conquista feitos incríveis, em relação aos outros filmes: Caetano Veloso assina a direção musical, enquanto que Débora Secco (primeiro nome a despontar nos créditos iniciais) empresta sua sensualidade à história, ainda que em rápidas cenas. Como protagonista do "tio" que mata um cara por ciúmes da antiga namorada repete-se Lázaro Ramos, que estava no longa anterior de Furtado, e aqui está melhor ainda, embora dividindo bem mais a tela (em O Homem... Lázaro reinava quase sozinho). Lá naquela noite de pré estavam o elenco, Caetano, o pessoal inteiro da Casa de Cinema, mais Nando Reis (o cantor também está na trilha e é pai de Sophia, mais uma revelação que está no elenco do filme), Luciana Mello, Paulo José (que fez a narração do histórico "Ilha das Flores") e uma "pá" de gente interessante. Celebridades. Coquetel antes e show depois, com direito a canja do diretor musical. VIP.
Mas é preciso lembrar que Meu Tio... vai para o circuito sem essa aura fashion e tem que funcionar sozinho. Furtado continua inteligente, sendo melhor roteirista do que diretor. Não que não dirija bem, ao contrário, mas se supera ao criar as situações e colocar frases simples e patéticas na boca de seus personagens. A abertura do filme, em clima de game, que se repete ao longo da narrativa, é um achado que atingirá o público mais jovem. O elenco jovem está afinado, e Sophia é um achado. Darlan Cunha (da série de TV "Cidade dos Homens")é o mais amarrado, mas é salvo pelo texto. Dira Paes está muito à vontade, Ailton Graça por sua vez carrega uma certa dose de artificialidade. Mas o conjunto funciona.
O roteiro mistura elementos dos dois filmes anteriores de Furtado: o trio principal com uma musa, um apaixonado e um bobalhão de Houve... se funde com a trama criminosa de O Homem.... Tudo é bastante redondo, funcionando com eficiência, mas perde pontos no seu desenvolvimento. A história pede mais, e isso não acontece. A premissa é boa, mas as conseqüências dos atos dos personagens não convencem. Há uma falta razoável de surpresas e de explicações criativas. É um passatempo, e periga ficar rotulado apenas como tal. O diretor-roteirista parece não estar pleno aqui. Teria sido o tempo de seu cronograma? Teria sido um desequilíbrio ao dedicar-se mais à direção e menos à criação do texto? Ou a assinatura de Guel Arraes (global vindo dos programas de humor da TV) junto no roteiro explicaria essa deficiência?
A atmosfera juvenil-policial que se repete pela terceira vez na carreira de Furtado denuncia uma exigência urgente: o diretor precisa fazer de seu próximo filme uma história para adultos, com temática e personagens iguais. Talento individual Jorge tem de sobra, e eficiência da estrutura dos homens e mulheres da Casa de Cinema também. Longa vida ao trabalho dos três casais, e longo amor entre eles, também.