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Cena de Cinema

por Renato Martins

Corra, Nina, Corra!

Filme de estréia de publicitário pernambucano arranca bem, mas perde o fôlego

Antes da sessão de pré-estréia de Nina em Porto Alegre eu perguntei ao diretor do filme Heitor Dhalia se a adaptação em cima de ''Crime e Castigo'', de Dostoievsky era pesada. Ele respondeu-me que não tinha como fazer algo light, e acrescentou que sua formação era publicitária. Dirigiu muitos comerciais, alguns curtas e agora chega aos cinemas com seu primeiro longa, com Guta Stresser - também debutando no grand écran - no papel principal de uma garota atormentada numa São Paulo sombria e meio decadente.

O ''terror psicológico'', gênero como o próprio Dhalia define seu filme, é uma seara difícil de trilhar. São produções a quilo que naufragam na tentativa de instalar no espectador o mesmo desespero que vive o personagem principal, geralmente em rota de fuga de sua própria rotina, quase sempre o pior vilão da história. Claro que a melhor base para filmar histórias assim é a literatura clássica, desde Kafka até o autor em questão, Dostoievsky, que na verdade serviu com uma inspiração.

O filme começa bem, embora eu ache que os diretores emergentes da publicidade privilegiam o estético, e às vezes em detrimento ao conteúdo. Mas a fita tem um pique bom e um clima soturno que vai encantando o espectador e preparando para uma roda viva que parece ser muito interessante, principalmente pela sua temática e o brete que a menina-título vivida por Guta se mete. Sem dinheiro, sem emprego (que ela joga às favas numa cena um tanto chavão, com requintes de David Lynch) e morando num quarto de uma velha senhora que mais parece uma bruxa mesquinha, sua vida é pura de decadência. Nina se afunda nas drogas, raves e amigas da noite, como prostitutas e travestis, como consolo. A bissexualidade latente e sem critérios é mais um indício da perdição perdida dela, que transparece uma falta de sentido em tudo o que faz.

Até a metade o filme de Dhalia segura a onda, com requintados cuidados de cena, desde zooms muito específicos, iluminações estudadas e composições cenográficas dignas de uma vernissage em Nova Iorque. A gota da lágrima que escorre no rosto da atriz, as sombras e reflexos, uma dentadura no copo, as luzes da cidade e o chão das calçadas buscam a pobreza e a decadência, mas esbarram no planejamento estético. Tudo é muito elaborado. Não chega a soar falso, mas vê-se que um estudioso do assunto está por trás das lentes, o que pode tirar um pouco da naturalidade do ambiente da narrativa. Mas não afeta a história, que caminha a passos largos para um ótimo segundo momento.

Aí vem a decepção. O abismo de Nina cresce sem critério, e mesmo que fosse para ser assim, perde a razão de ser. A personagem enfrenta a solidão, a sua própria raiva pela condição de ser e novos problemas que surgem de uma maneira um tanto esquemática. Talvez não haja grandes erros de ritmo ou enredo, mas o resto não colabora muito. A peteca cai no chão. Dhalia perde o rumo de seu esteticismo antes descortinado, Guta se torna repetitiva e beira a falsidade (e a irritação do espectador, o que é pior) e a diversão da platéia passa a ser identificar os nomes famosos que aparecem em pontas, como o cego Wagner Moura (de Deus é Brasileiro, muito fraco por sinal, o que não é comum no ator), os pintores Matheus Natchtergaele e Lázaro Ramos, que não dizem a que vieram, o drogado Selton Mello (que mal diz uma frase), uma quase imperceptível Renata Sorrah e assim por diante. Nada muito aproveitado nem mesmo justificado. Mas estão lá.

Parece que a segunda metade não faz jus à primeira. Cai o nível de direção, cai o nível de interpretação. O roteiro, que - repito - nos encaminha para um belo desenrolar, torna-se fraco e insistente no clichê. No alto de sua paranóia, por exemplo, Nina encontra nas ruas molhadas a la Blade Runner de São Paulo um velho que a olha com ar de condenada. Ela quer saber o porquê (e o espectador também!), ele pára numa esquina, aponta a bengala para ele como quem vai proferir uma frase enigmática ou esclarecedora e ele nada fala. Será que faltou aos roteiristas (o próprio diretor e mais Marçal Aquino, de filmes como O Invasor) uma frase inteligente para escrever? Outro exemplo do mesmo erro: quase no final do filme a garota chega na porta no quarto aos prantos e a amiga está a folhear uma antigo caderno que não é dela, é de Nina. Esperamos uma frase de ódio, lembrança ou simplesmente desprezo e Nina só sai correndo, exaltando sua dor. Era essa mesmo a intenção? ''O silêncio vale mais do que mil palavras?'' Não sei não. Acho é que faltou mesmo encaixes inteligentes para resolver situações. O próprio sofrimento de Nina se torna um tanto exagerado (embora ela tenha motivos para isso) e inverossímil. O público quer a resolução ou a catarse. A manutenção do estado paranóico só se justificaria se a encenação fosse mais convincente.

Acredito que os prêmios que Nina tem conquistado no exterior congratulam mais o seu aspecto estético, o que é de grande valia. O filme é refinado e insiste nesta questão, propondo talvez uma nova forma de fazer cinema com qualidade no Brasil. Não é um mau filme para um estreante, pelo contrário, é uma grande vitória. Mas poderia ser melhor se a segunda metade fosse tão brilhante e interessante quanto a primeira.

Adoro Cinema Brasileiro

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