A crítica trucidou o filme Olga, que abriu o 32º Festival de Cinema de Gramado, fora da mostra competitiva. Muitos foram impiedosos, outros já equilibraram um pouco mais a balança dos pontos positivos e negativos. Os jornalistas presentes na serra gaúcha fizeram, de maneira geral, um certo coro único de repúdio ao filme. Também não gostaram muito de "O Quinze" e Araguaya, esses sim na competição. Depois da terceira noite de Festival, porém, todos foram obrigados a rever seus conceitos: o filme catarinense "As Procuradas" foi tão ruim, mas tão ruim, que todo mundo começou a pensar então o que poderia ser encontrado nos outros filmes para que valessem o Kikito do festival. Afinal, alguém tem que ganhar. E esse baixo nível de qualidade dos filmes no certame fez Olga se transformar no melhor representante do cinema nacional no evento.
Este é o problema de críticos e festivais: referências demais. Conforme o parâmetro, o ruim acaba sendo premiado. Ou por causa da falta de parâmetros. Ou de opções. Ao assistir o longa de SC, fiquei pensando nos filmes que foram descartados do concurso. Aqueles deveriam ser os mais constrangedores possíveis. Sou da turma dos jornalistas especializados em cinema e sei o quanto é desagradável e complicado para quem lê. Mas também é igualmente para quem analisa. Tenho certeza que muitos aqui queriam festejar os filmes bons. Mas não há, não há também o que fazer.
Olga tem problemas, mas é um exagero destruir o filme e avisar as pessoas para que não o vejam. Dentro do cinema, lembrou em muito o famigerado A Paixão de Jacobina, desastrosa adaptação feita for Fábio Barreto do livro de Luiz Antônio de Assis Brasil, também exibida fora de concurso no Festival de Gramado, há dois anos. O excesso de ''fades'' - aquele momento de escuridão gradual na tela para trocar de cena - acabou com o ritmo da fita de Barreto e compromete em muito o de Monjardim. As histórias, em volta de uma mulher forte e líder, com ramificações políticas e com laços que passam pelo Rio Grande do Sul, também reforçam a comparação. Mas Olga é muito melhor que Jacobina (o filme, não as personalidades). A história parece ser mais rica na tela, com muitos personagens e fatos que, embora um pouco truncados na primeira metade do filme, garantem uma emoção constante na narrativa. Camila Morgado, um pouco apática, reproduz com perfeição o olhar que a mulher de Prestes tinha. Mais do que os olhos verdes, a atriz conseguiu construir o jeito de olhar de Olga. Isso é um grande ponto a favor. O seu interlocutor é Caco Ciocler, que referenda no papel de Prestes o atestado de bom ator. As cenas mais dramaticamente interessantes são as que ele protagoniza, não ela.
Há um problema com a trilha sonora, que é excessiva e parece querer lembrar a todo instante a hora de lacrimejar. Ela começa de maneira interessante e atordoa em direção ao final. Aí os tais ''fades'' começam a ser mais notados e por conseqüência, incômodos. Já o roteiro, bastante detalhado e correto, cresce na segunda metade do filme, auxiliado pelos fatos da vida de Olga, que obviamente deixam o espectador mais ansioso. É nesta metade que surgem diversas seqüências um tanto apelativas, flertando muito de perto com os clichês. Mas tudo depende, a essa altura, de quanto você comprou a história ou não. Para quem embarcou, a emoção será justificada. As lágrimas, se vierem, serão provocadas pela intensidade dos atores, auxiliadas pela belíssima fotografia. Mesmo que a trilha atrapalhe e o ''fade'' venha rápido demais. Monjardim poderia deixar rolar mais, eu sei. E cortar outras coisas. Mas procurou fazer um filme tecnicamente bem feito (e teve dinheiro da Globo Filmes para isso) e conseguiu vários elementos louváveis. Além de tudo que já citei o cuidado com o somé impecável. Dizem que o cineasta pediu volume máximo no sistema de som do Festival em Gramado. Um erro. A ótima sonorização pode ser notada em volume médio. Foi um exagero que só atrapalhou mais a arrancada da carreira do filme.
De resto, há ótimos coadjuvantes que sustentam a dramaticidade do filme, como o gaúcho Werner Schunemann, em seu papel mais seguro até agora, na pele de um americano que auxiliou os comunistas brasileiros e depois foi torturado pelos alemães. Floriano Peixoto como Filinto Müller também está competente. Apenas Osmar Prado, que estraga as cenas em que aparece com a maquiagem e o sotaque carregado de seu Getúlio Vargas.
Niguém pode julgar intenções, e estas não ajudam em nada um mau filme, mas Monjardim e sua turma trabalharam para fazer o melhor. Dá pra sentir isso. A fita tem um marketing e tanto e apoio de um poderosa do setor de produção e distribuição. Mas a equipe se esforçou. Erraram em muitas coisas, mas podem tranqüilamente exibir a produção no circuito nacional que terão aprovação do público e uma boa bilheteria, reforçando o bom momento do cinema nacional. Só não dá pra pensar alto demais, como por exemplo, querer incluir Olga no Oscar do ano que vem.