Parece uma obviedade, e depois do sub-título aí de cima parece que vem bomba no texto abaixo. Mas não. Avassaladoras não é um filme ruim. Não vou nem insistir na velha tese do desarmamento (daquela que o espectador vai ao cinema sem esperar nada, e o filme fraco acaba virando razoável), mas o fato é que se podia esperar tudo de um filme que calca seu chamariz em dois nomes televisivos, menos que ele fosse bem divertido. Os dois nomes em questão, Giovanna Antonelli e Reynaldo Gianecchini, são oriundos de novelas globais e estão aqui em uma história de romances e desilusões temperado com algum humor. Até aqui, nada de diferente e de novidade em relação a outros filmes com casais da TV como Amores Possíveis (Murilo Benício e Carolina Ferraz) e Pequeno Dicionário Amoroso (Daniel Dantas e Andréa Beltrão) - estes dois bem mais consistentes, diga-se de passagem. A fórmula é a mesma, o resultado um pouco menos nutriente, mas Avassaladoras mostra uma leveza inovadora no estilo, que o faz crescer.
A história de Laura (Giovanna), uma mulher bonita mas que há um ano está sem namorado e sofre o assédio do bonitão do escritório (Reynaldo) lembra a atmosfera criada pela escritora britânica Helen Fielding, em seu best-seller Bridget Jones, que também virou filme, com Renée Zellweger. Com suas amigas fofoqueiras e igualmente problemáticas - personagens estereotipados, mas que não chegam a abalar o contexto -, a moça acaba procurando uma agência de encontros e inserindo o humor no enredo. É aí que entra em cena Caco Ciocler, outro televisivo, mas que aqui está impagável no papel de um tosco comerciante carioca descendente de árabes. Ele que atuou brilhantemente em Bicho de Sete Cabeças (como o interno mais louco de todos) e também foi visto em O Xangô de Baker Street, rouba a cena em muitos momentos. Mas Giovanna Antonelli, um pouquinho menos escolada em cinema - mas com Bossa Nova no currículo -, surpreende, mostrando uma protagonista frágil e divertida. O que torna o filme bastante divertido. Corre por fora o galã Gianecchini, que estréia no cinema e, por falta de uma referência, citamos seu último papel: Ricardo, na novela As Filhas da Mãe. Depois de assistir Avassaladoras fica claro que: a) Reynaldo sabe atuar. Mas b) dificilmente vai se livrar de papéis de galã sedutor.
É claro que não dá para negar todo o marketing das novelas ao chamar o público para ver o filme da diretora Mara Mourão - que recém faz seu segundo filme no cinema, o primeiro foi Alô, de 1998. O personagem Jade, de O Clone, contribui para o sucesso da produção. Mas não é tudo. O erro do filme está em sua campanha em cima dos nomes televisivos. O trailer já prometia isto, dizendo que "se já era bom vê-los na telinha, imagine na telona". Mas é um erro. A começar que são linguagens diferentes, o cinema e a televisão, e o fato de apelar para esta referência só restringe a produção a isso, quando na verdade tem muito mais: tem ângulos de câmera interessantes (uma seqüência inicial bem sacada), tem uma narrativa moderna e contagiante (com quatro cenários diferentes na tela, como se fosse um menu de DVD), tem estímulos visuais constantes que prendem o espectador e tiradas inspiradas no roteiro (pra contrabalançar com alguns chavões e sentenças desnecessárias). E mais: o filme é passado no Rio de Janeiro sem explorar em demasia as belas ../imagens da cidade - como em Bossa Nova, onde a paisagem era essencial para a história.
A fita ainda tem personagens que orbitam na história que ajudam e atrapalham o produto final: a jornalista Marília Gabriela rompe na tela como uma lésbica morena; a chatinha Chris Nicklas (ex-MTV) faz o papel da amiga yuppie estressada e ocupada demais para amar; Ingrid Guimarães que também beira a chatice (por seu personagem insistente e problemático demais - embora eu saiba que tem gente assim!), Márcia Real no papel da vó consoladora da personagem principal e Paula Cohen como Betty - o personagem mais cômico e mais bem dosado da trama: não é exagerado nem econômico. Por todo esse contra-balanço é que Avassaladoras não é um filme perfeito, mas se sai bem melhor do que a encomenda. Para quem espera um amontoado de artistas de novela tentando fazer graça com um roteiro previsível nas mãos, com o Pão de Açúcar ao fundo, ganha em troca uma bela surpresa cinematográfica. E o mérito é para a equipe toda: direção, roteiro e atores se esforçaram, e o resultado sai na tela. Só não sei de quem foi a idéia infeliz de colocar o ex-RPM Paulo Ricardo assassinando o clássico musical dos anos 70 de James Taylor "Handy Man" como trilha para as investidas do galã Gianecchini em seu apartamento. Era menos constrangedor que ele usasse a original para sonorizar suas transas!