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Fora de Circuito

por Marcelo Guerra

Uma fábula moderna, engraçada, bem construída

 

Cheio de alegorias, a primeira impressão que se tem é que estamos assistindo a uma peça filmada. Os cenários todos teatrais, a iluminação também típica dos palcos, ainda mais nas passagens de tempo, a narração em off, a apresentação dos personagens, que muitas vezes se dá olhando diretamente para o público, ou melhor, para a câmera, as atuações, tudo ajuda na criação de um clima de distanciamento. O que podia ser um problema em muitos filmes é na verdade um trunfo do diretor Jõao Falcão em seu novo e bom longa A Máquina.

Sendo uma fábula moderna, na qual um nordestino de uma insignificante cidade do interior busca ganhar o mundo por amor, e recheada de acontecimentos fantásticos e longe da realidade, como é das fábulas, nesse longa a forma casa com perfeição com o conteúdo. Nesse caso o distanciamento do público é benéfico e não deixa em momento nenhum a audiência esquecer que toda a história não se passa de uma lenda, de uma história sem compromisso com o real.

Na segunda parte da história, quando Antônio parte para cidade, outros elementos que vão além do teatro são inseridos no filme. Videoclipes inteiros, câmeras de segurança, merchandise e televisão são usados de forma criativa e dando um charme a mais no filme, transformando ele em algo mais do que apenas uma peça filmada, fazendo bem a transição para o cinema. Apesar de não ser nada revolucionário, os elementos estão alí presentes.

Com ótimas atuações, de Paulo Autran, Wagner Moura, Lázaro Ramos e Gustavo (no papel principal) , o longa é recheado de humor e bastante divertido. Um filme bem diferente do que o cinema brasileiro tem produzido nos últimos anos. Sem crítica social forte , mas com uma história bem construida e interessante, o filme é uma boa aposta para fazer bonito nas bilheterias no ano que vem. O longa foge da mania nacional de que cinema tem que falar diretamente dos problemas sociais e ser recheados de teses e discuros políticos.

A única coisa que me incomodou um pouco no filme foi a demora da primeira parte do longa. São quase meia hora de apresentação dos personagens até que Antonio deixe a pequena cidade e vá tentar a sorte no Rio de Janeiro.

No começo do longa o diretor lança mão de um recurso bastante utilizado nos filmes ultimamente, deslocar uma cena impactante do desenrolar da história e abrir o filme com essa cena, que virá a se repetir posteriormente. Assim prendendo a atenção do público. O recurso é valido, mas por já ter sido utilizado demasiadamente por outros filmes perde um pouco do valor de criatividade.

A brincadeira com o tempo, que o filme propõe, é interessante e rende boas cenas, porém poderia ser mais explorada.

Uma fábula moderna, engraçada, bem construída, e que encontrou sua melhor forma de ser adaptada para o cinema. Um exemplo de como a forma e o conteúdo são uma única coisa e não podem ser entendidas como independentes. Um filme que diverte sem a pretenção de ser uma obra prima, algo que está longe de ser.

Adoro Cinema Brasileiro

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