Lavoura Arcaica, filme de estréia do diretor Luiz Fernando Carvalho, é difícil de explicar. É mais um daqueles filmes que vale mais pela experiência proporcionada durante sua projeção do que propriamente pela sua história. Trata-se de filme-poesia, com estrofes e versos espalhados no seu decorrer, na forma de belas e, muitas vezes, desconexas cenas. E é justamente esta opção lírica que o filme assume descaradamente que fez com que a crítica especializada, de um modo geral, se derretesse em elogios e o público, também de um modo geral, se dividisse entre vaias e aplausos.
"Lavoura Arcaica" é baseado em livro homônimo de Raduan Nassar, que já teve outro de seus livros adaptado para o cinema, Um Copo de Cólera. Em ambos os filmes, adaptados fielmente aos livros de Nassar, percebe-se uma força incomum nos diálogos dos personagens. Em "Um Copo de Cólera" as melhores cenas são justamente o combate verbal entre os personagens de Alexandre Borges e Julia Lemmertz. Em "Lavoura Arcaica" as melhores cenas são as que Raul Cortez e Selton Mello, pai e filho, se confrontam verbalmente. Os diálogos de Nassar, além de demonstrarem a convicção dos personagens naquilo que dizem, são ainda complexos, distanciando-se muito das falas comuns dos filmes hollywoodianos e também da grande maioria dos nossos sucessos do cinema brasileiro. Este é um dos pontos que provoca um certo distanciamento entre público e filme: por muitas vezes ser poético até demais, o público se perde em sua tentativa de compreender o que é mostrado em cena.
Outro fator que provoca este distanciamento entre público e filme é que, principalmente em sua primeira metade, "Lavoura Arcaica" foge por demais do tema principal de seu roteiro. O real motivo pelo qual André passa a questionar toda a realidade que o cerca, sua paixão pela irmã Ana, apenas é apresentado após mais de uma hora de filme. Enquanto isso somos presenteados com belíssimas cenas dirigidas por Luiz Fernando Carvalho, mas que pouco acrescentam à trama, apesar de sempre terem algo a ver com a história central. Isto acaba fazendo com que, quando o filme enfim começa a trilhar o rumo de sua trama central, o público já esteja um pouco cansado, pecado capital em um filme de quase três horas de duração.
Mas "Lavoura Arcaica" é, principalmente, um filme de direção e atuações. Luiz Fernando Carvalho talvez tenha feito a melhor direção do cinema brasileiro dos últimos anos, comparada à de Walter Salles em Central do Brasil. A fotografia, do sempre excepcional Walter Carvalho, é um primor, colocando sempre os atores entre sombras e luzes. Já os atores mereceriam um capítulo a parte. Selton Mello, em atuação extremamente inspirada, encarna com todas as suas forças os conflitos internos enfrentados por André. Raul Cortez transmite através de seu olhar a rigidez de um pai que busca criar seus filhos seguindo as velhas tradições e também o amor que sente pelos filhos. Simone Spoladore consegue, sem dizer uma única palavra em todo o filme, transmitir com exatidão o desejo, a paixão, a penitência e o alívio sentidos por sua personagem. Uma trinca de atores que demonstra o que há de melhor em "Lavoura Arcaica" e que, sem eles, o filme com certeza estaria alguns degraus abaixo em matéria de qualidade.
"Lavoura Arcaica" é um filme que precisa ser assistido por todos os cinéfilos que apreciam o bom cinema, mesmo aqueles que não gostem de ver poesia explícita na tela do cinema. Trata-se de um filme que deve ser apreciado por pedaços, pois são muitos os ingredientes que o compõem. Portanto, mesmo que você não goste de poesia, assista o filme para conferir a direção de Luiz Fernando Carvalho. Ou a fotografia de Walter Carvalho. Ou as atuações de Selton Mello, Raul Cortez e Simone Spoladore. Ou, pelo menos, para conhecer a história do faminto, contada de forma explêndida em meio a "Lavoura Arcaica".